Cabedelo amanheceu nesta terça-feira, 14 de abril de 2026, sob o peso de uma operação que explodiu no coração do poder municipal. Depois de pouco mais de um dia do início do novo ciclo político após a vitória nas urnas no domingo, Edvaldo Neto foi afastado cautelarmente da Prefeitura no âmbito da Operação Cítrico, deflagrada pela Polícia Federal em ação conjunta com o Ministério Público da Paraíba, por meio do GAECO, e a Controladoria-Geral da União. A investigação mira um suposto esquema de fraude em licitações, desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e possível financiamento de facção criminosa com atuação em Cabedelo. Segundo os órgãos de investigação, o grupo investigado teria usado contratos administrativos para alimentar um sistema de poder, influência e blindagem institucional, em um esquema cujo valor pode chegar a R$ 270 milhões. Ao todo, foram cumpridos 21 mandados de busca e apreensão, além de medidas cautelares pessoais, entre elas o afastamento do prefeito e de outros agentes públicos. 

O impacto político da operação é ainda maior porque o afastamento acontece logo após a eleição suplementar realizada no domingo, 12 de abril, quando Edvaldo Neto foi proclamado vencedor pela Justiça Eleitoral. O que seria o começo de um mandato legitimado nas urnas foi atravessado, em menos de 48 horas, por uma ofensiva judicial e policial que lançou Cabedelo novamente no centro de uma crise institucional. A cidade, que saiu de um processo eleitoral extraordinário tentando virar a página, viu o novo capítulo nascer já sob a sombra de uma investigação que fala em infiltração criminosa dentro da máquina pública. 

O ponto mais explosivo de todo o caso está na coincidência política — ou ironia brutal, como dirão os críticos. Um dia antes da operação, Edvaldo Neto havia anunciado que encaminharia à Câmara um projeto de lei para proibir a contratação, pela administração pública, de pessoas investigadas por tráfico de drogas e participação em organizações criminosas. A proposta foi apresentada como um dos primeiros marcos de sua gestão, um gesto de endurecimento contra a presença do crime na estrutura pública. Menos de 24 horas depois, porém, o próprio prefeito se tornou alvo de uma operação que apura justamente o suposto uso da prefeitura como ambiente de infiltração, circulação de dinheiro público em benefício do crime organizado e manutenção de contratos milionários. O contraste entre discurso e investigação transformou uma bandeira política em combustível para o escândalo. 

É exatamente aí que a Operação Cítrico ganha uma dimensão ainda mais perturbadora. Não se trata apenas de uma apuração sobre irregularidades administrativas. O que os investigadores descrevem é algo muito mais grave: a suspeita de que contratos públicos podem ter servido, segundo a linha investigativa, como pontes entre interesses empresariais, agentes políticos e integrantes de organização criminosa. Quando uma operação oficial fala em consórcio entre alta cúpula municipal, empresários e membros de facção, o escândalo deixa de ser meramente burocrático e passa a atingir o núcleo simbólico do Estado — a confiança de que a prefeitura governa para a população, e não para redes de influência clandestina. 

A análise política do caso é inevitável: se a proposta enviada à Câmara era uma tentativa de marcar posição contra o crime organizado, ela agora volta como um bumerangue devastador. A mensagem que o prefeito quis passar era a de ruptura, controle e “faxina” institucional. O problema é que a operação desmonta essa narrativa no exato momento em que ela estava sendo construída. A crise não nasce apenas do conteúdo das acusações, mas do choque entre o discurso moralizador e a condição de investigado. Em política, poucas imagens são tão corrosivas quanto essa: o gestor que promete fechar as portas para faccionados e, no dia seguinte, é afastado em uma investigação que aponta possível relação entre contratos públicos e uma facção criminosa. Não há, por ora, condenação nem juízo definitivo de culpa, mas o estrago político da cena já está feito. 

Também chama atenção o timing institucional. Edvaldo Neto já vinha ocupando papel central na administração de Cabedelo desde que assumiu interinamente a prefeitura após a crise anterior no município. Ao vencer a eleição suplementar, consolidava nas urnas uma posição que já exercia politicamente. Por isso, o afastamento cautelar desta terça não atinge apenas um mandato recém-confirmado; atinge a própria tentativa de estabilização do município. Cabedelo, mais uma vez, é empurrada para um cenário de incerteza, em que o debate deixa de ser apenas governabilidade e passa a ser legitimidade, controle, investigação e sobrevivência política. 

Do ponto de vista jurídico e institucional, a operação ainda está em curso, e isso precisa ser dito com clareza. O afastamento é cautelar, a investigação segue aberta, e os fatos ainda serão submetidos ao contraditório e à ampla defesa. Mas, do ponto de vista político e narrativo, a cidade assiste a uma cena devastadora: o homem que tentava vender a imagem de rigor contra o crime agora precisa explicar, ele próprio, por que virou alvo de uma megaoperação que fala em fraude, lavagem, desvio e facção. É esse abismo entre a promessa e a suspeita que transforma o caso em uma bomba política de alto impacto.

Nota da defesa

No fim do dia, a defesa de Edvaldo Neto afirmou receber a decisão com serenidade e sustentou que o afastamento tem caráter apenas provisório, sem representar qualquer conclusão definitiva sobre o caso. Os advogados declararam confiar que os fatos serão esclarecidos ao longo do processo, com respeito ao contraditório e à ampla defesa. Também negaram qualquer vínculo do prefeito com facção criminosa, classificando essa imputação como inverídica e incompatível com sua trajetória pública. A defesa ainda destacou que, um dia antes da operação, foi encaminhado à Câmara Municipal um projeto de lei para proibir a contratação, pela administração pública, de pessoas investigadas por envolvimento com tráfico de drogas e organizações criminosas, apontando a medida como prova do compromisso do gestor com a legalidade e o combate ao crime. Por fim, afirmou confiar nas instituições e disse acreditar que a inocência do prefeito será comprovada ao término das investigações. 
SB