Levantamentos ajudam a compreender o cenário eleitoral e influenciam o debate político, mas números precisam ser lidos com método, contexto e cautela
Na reta final de uma eleição, poucos assuntos provocam tanta expectativa quanto uma nova pesquisa de intenção de voto. Basta a divulgação dos números para começarem as análises: quem cresceu, quem caiu, quem está na frente e quem aparece dentro da margem de erro.
As pesquisas têm importância inegável para o processo eleitoral. Elas ajudam a identificar tendências, medir o sentimento do eleitorado naquele período e compreender como uma candidatura está sendo percebida. Mas há uma diferença fundamental que muitas vezes se perde no calor da disputa: pesquisa eleitoral não é resultado de eleição.
Na Paraíba, essa reflexão ganha ainda mais importância. Nas Eleições de 2026, o estado possui 3.247.397 eleitores aptos a votar, distribuídos por 223 municípios. João Pessoa reúne 585.279 eleitores; Campina Grande, 304.181. O restante do eleitorado está espalhado por municípios de diferentes portes e regiões, formando uma realidade política bastante diversa.
Nenhuma pesquisa ouve todos esses mais de três milhões de paraibanos. O levantamento trabalha com uma amostra construída estatisticamente para representar o universo do eleitorado. Por isso existem elementos essenciais como margem de erro, nível de confiança, plano amostral, ponderações e período de realização das entrevistas.
A legislação eleitoral reconhece justamente a importância desses critérios. Para as Eleições de 2026, os levantamentos destinados ao conhecimento público precisam ser registrados na Justiça Eleitoral, com informações sobre metodologia, período de coleta, composição da amostra, ponderações, margem de erro e nível de confiança, entre outros dados.
O próprio Tribunal Superior Eleitoral atualizou, em setembro, o sistema de pesquisas para ampliar a padronização e o detalhamento das informações metodológicas apresentadas ao público. A medida reforça um princípio importante: quanto mais informações sobre como a pesquisa foi realizada, melhor o cidadão consegue interpretar seus resultados.
A pesquisa registra um momento
Talvez essa seja a principal chave para compreender uma pesquisa eleitoral.
Se determinado levantamento foi realizado durante três ou quatro dias, ele procura retratar as opiniões encontradas naquele intervalo. Entre a última entrevista e a abertura das urnas, entretanto, a campanha continua.
Há debates, entrevistas, caminhadas, carreatas, programas eleitorais, redes sociais, conversas familiares, acontecimentos locais e nacionais e, principalmente, eleitores que ainda podem formar ou modificar sua decisão.
Existe ainda outra diferença: declarar uma intenção de voto durante uma entrevista não é exatamente a mesma coisa que comparecer à seção eleitoral e confirmar aquele voto na urna.
Nas eleições de 2022, por exemplo, a Paraíba tinha 3.091.684 eleitores aptos no primeiro turno, mas 2.557.095 compareceram às urnas. A abstenção foi de 17,29%.
É mais uma razão para compreender que uma pesquisa e uma eleição medem coisas diferentes.
Mas pesquisas influenciam?
Elas certamente passam a fazer parte do ambiente político.
Um candidato apresentado em crescimento ganha espaço nas conversas; uma diferença pequena pode aumentar a atenção sobre determinada disputa; campanhas também observam esses dados para entender onde precisam intensificar suas estratégias.
A influência sobre o voto individual, entretanto, não deve ser tratada como automática. Estudos acadêmicos já identificaram em determinados contextos o chamado bandwagon effect, no qual a percepção de crescimento de uma candidatura pode influenciar alguns eleitores. Outros trabalhos mostram que as reações às pesquisas podem ser diferentes conforme o eleitor e o contexto político. Portanto, não existe uma fórmula segundo a qual quem aparece na frente necessariamente receberá aqueles mesmos votos no dia da eleição.
E talvez esteja justamente aí o cuidado necessário nesta reta final.
Número não é sentença
Uma pesquisa bem realizada não precisa coincidir exatamente com o resultado das urnas para ter cumprido sua função.
Ela responde, essencialmente, à pergunta: “Se a eleição estivesse acontecendo neste momento, dentro dessas condições e segundo essa metodologia, qual seria a intenção declarada pelos entrevistados?”
Já a urna responde outra pergunta, definitiva: “Em quem os eleitores que efetivamente compareceram decidiram votar?”
Entre essas duas perguntas existe tempo. E dentro desse tempo existe campanha, existe mudança de opinião e existe o eleitor.
Por isso, diante de cada nova pesquisa, talvez o melhor caminho não seja desacreditar os números, nem transformá-los em verdade absoluta.
É preciso observar quem realizou o levantamento, quando as entrevistas aconteceram, quantas pessoas foram ouvidas, quais regiões participaram da amostra, qual é a margem de erro, qual o nível de confiança e quais eram os percentuais de indecisos, brancos e nulos.
Pesquisa eleitoral é uma importante ferramenta de informação. Ajuda a revelar movimentos e tendências e faz parte da democracia moderna.
Mas tendência não é destino.
Até o fechamento das urnas, quem escreve a história da eleição não é um gráfico, uma porcentagem ou uma manchete.
É o eleitor.
Por Sabrina Barbosa