A cirurgia bariátrica, antes considerada um procedimento quase exclusivo para adultos, está cada vez mais presente no universo adolescente. Recentes mudanças nas diretrizes do Conselho Federal de Medicina (CFM) modificaram os critérios para a realização do procedimento em jovens, reacendendo discussões sobre seus riscos, benefícios e implicações a longo prazo.

Em abril de 2024, o CFM atualizou a Resolução nº 2.131/2015, que regulamentava a cirurgia bariátrica em adolescentes. A nova resolução reduz de 16 para 14 anos a idade mínima para a realização do procedimento, desde que o jovem apresente obesidade grave (IMC ≥ 40 ou ≥ 35 com comorbidades) e tenha falhado em tratamentos clínicos por pelo menos seis meses. A decisão deve ser acompanhada por um parecer de equipe multidisciplinar composta por médicos, psicólogos, nutricionistas e outros especialistas.

Segundo o CFM, a mudança se baseia em evidências científicas que demonstram que, em casos selecionados, a cirurgia pode reduzir significativamente os riscos de doenças como diabetes tipo 2, apneia do sono e hipertensão arterial.

Para o cirurgião bariátrico Dr. Augusto de Almeida Junior, o processo de decisão pela cirurgia em adolescentes deve ser cuidadosamente construído, e nunca apressado. Segundo ele, a conversa franca entre equipe médica, paciente e família é fundamental para garantir bons resultados a longo prazo.

“Mais do que seguir protocolos, é essencial ouvir o adolescente. Entender suas motivações, expectativas e medos. A cirurgia não é uma solução mágica — ela exige comprometimento e maturidade”, afirma. “O diálogo constante entre o paciente, os pais e a equipe multidisciplinar ajuda a alinhar expectativas e evita frustrações futuras.”

Dr. Augusto ressalta que o preparo emocional e educacional no pré-operatório é tão importante quanto a parte técnica. “Quando há clareza, responsabilidade compartilhada e apoio, os resultados são muito mais positivos, tanto na saúde física quanto na autoestima do jovem.”

Números crescentes e preocupações crescentes

Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) apontam um aumento de 200% nos procedimentos bariátricos em adolescentes nos últimos cinco anos. A tendência acompanha a escalada da obesidade infantojuvenil no Brasil, onde cerca de 1 em cada 4 adolescentes está acima do peso, segundo o IBGE.

A ampliação do acesso à cirurgia bariátrica para adolescentes reflete uma tentativa de enfrentamento da epidemia de obesidade no Brasil. Entretanto, a medida exige responsabilidade, critérios bem definidos e acompanhamento contínuo. A decisão por operar um adolescente deve ser individualizada, pautada em evidências médicas e sempre centrada no bem-estar do paciente — hoje e no futuro.

SB