Na beira do silêncio imposto pelo medo, a realidade grita nas ruas estreitas da comunidade conhecida como Casa dos Artistas, em Bayeux, na Grande João Pessoa. Sem saneamento, com moradias improvisadas e ausência quase total do poder público, o local se transformou em território fértil para facções criminosas, tráfico de drogas e violência.

Entre becos de barro e ruas sem asfalto, vivem mais de 80 crianças, expostas diariamente a cenas de confronto armado, dependência química, ameaças e execuções. Muitas assistem de perto à violência, como se fosse parte natural da infância.

“As crianças já sabem quando começa o tiroteio. Elas correm para o chão, se abaixam, já aprenderam que não é brincadeira”, conta uma moradora de 61 anos, que aceitou falar sob anonimato. Identificada apenas pelas iniciais M.P., ela teme ser reconhecida:
“Eu não posso falar quem sou, porque a facção manda aqui. A gente vive calado, rezando pra não ser o próximo”.

Assassinatos em série

Nos últimos dois dias, três mulheres trans foram brutalmente assassinadas na grande João Pessoa. A última, Duda, de 21 anos, foi justamente na comunidade Casa dos Artistas, e foi executada a tiros dentro de casa, enquanto dormia, na madrugada desta terça-feira (22). Mais de trinta tiros segundo a perícia e pelo menos três armas de diversos calibres foram usadas no crime. Mesmo modus operandi usado nos outros dois crimes com mulheres trans.

As vítimas viviam em comunidades vulneráveis, sem qualquer forma de proteção social. Em comum, estavam à margem da sociedade, expostas ao preconceito, à exclusão e à violência armada.

Na Casa dos Artistas, a população trans enfrenta uma luta diária pela sobrevivência. Muitas são rejeitadas pelas famílias, não conseguem empregos formais e acabam empurradas para situações de alto risco — seja na prostituição, no tráfico ou simplesmente por viverem em uma zona controlada pelo crime.

Vidas vulneráveis, corpos descartados

O abandono do poder público se reflete em ruas sem coleta de lixo, esgoto a céu aberto, barracos improvisados e nenhuma presença constante das forças de segurança. A única lei que vale é a da facção.

“A gente não vê polícia, não vê prefeito, não vê saúde. Só vê arma, morte e choro”, desabafa M.P., segurando uma criança no colo. “É fácil matar aqui. E ninguém pergunta por quê.”

Cenário propício ao domínio do crime

Especialistas apontam que comunidades como a Casa dos Artistas são zonas de alto risco social, favorecendo o aliciamento de jovens e o domínio territorial por grupos armados.

Em alguns casos, moradores relatam que só é possível entrar ou sair da comunidade com autorização informal da facção que atua no local. Quem denuncia ou tenta escapar, pode ser punido com ameaças ou até a morte.

As recentes mortes em Bayeux levam a população a pedir por justiça e dignidade e escancaram o que já era sabido por quem vive na pele: a vulnerabilidade mata.

SB