O avanço do mar deixou de ser uma preocupação distante e passou a ser uma realidade incômoda para a Paraíba. Com 133 quilômetros de litoral, o estado começa a viver um dilema que mistura beleza natural, turismo, economia e sobrevivência de comunidades inteiras: a erosão costeira. Ontem, em Manaíra, um grupo de pesquisadores do Programa Estratégico de Estruturas Artificiais Marinhas (Preamar) instalou um moderno equipamento oceanográfico para medir a força das correntes e das ondas que vêm transformando a faixa litorânea.

A Paraíba, reconhecida nacionalmente por suas praias urbanas de areia clara e águas mornas, enfrenta o paradoxo de ver seu cartão-postal ser lentamente engolido. O fenômeno, já visível em áreas como Bessa e Camboinha, ameaça não apenas o patrimônio ambiental, mas também residências, estabelecimentos comerciais e a economia do turismo — um dos motores locais.

O aparelho implantado, um ADCP (Acoustic Doppler Current Profiler), promete revelar o que até agora era observado apenas a olho nu: como a força das correntes transporta sedimentos e redesenha a linha costeira. Com dados coletados em intervalos de um metro ao longo da coluna d’água e reforçados por outras duas estruturas a serem instaladas em alto-mar, os cientistas querem traçar um diagnóstico que finalmente exponha as reais proporções do problema.

E é justamente aí que está a polêmica: se a ciência confirmar a gravidade da erosão, ficará claro que o estado precisará agir de forma urgente. Obras de contenção, como quebra-mares, custam caro e podem gerar novos impactos ambientais. E, segundo os pesquisadores, sem conhecimento técnico aprofundado, uma intervenção mal planejada pode até agravar a destruição — transferindo o problema de uma praia para outra.

O estudo, que também vai medir os impactos biológicos e socioeconômicos, promete ser um divisor de águas para a política ambiental da Paraíba. O desafio não é apenas proteger a paisagem de cartão-postal, mas garantir a sobrevivência de comunidades inteiras que vivem próximas ao mar.

A expectativa é que, ao final do trabalho, um modelo matemático sirva como guia para políticas públicas mais responsáveis. Mas, até lá, uma pergunta incômoda paira sobre o litoral paraibano: o que restará das praias se o mar continuar avançando no ritmo atual?

SB