O debate sobre a volta do horário de verão voltou à cena nacional após o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) divulgar, nesta terça-feira (8), o Plano da Operação Energética 2025–2029. No documento, o órgão indica que, em cenários específicos, a retomada da medida pode ser recomendada como parte de um conjunto de ações para garantir o fornecimento de energia no país.
A proposta ganha força diante da necessidade de suprir um déficit estimado de 2 gigawatts (GW) no sistema elétrico nacional, especialmente no período de pico, entre 18h e 21h, quando o consumo atinge seu maior nível devido à maior demanda por iluminação e climatização nos domicílios e comércios. Para enfrentar esse desafio, o ONS aponta ainda a importância da conclusão de novas linhas de transmissão e o uso de mecanismos como a resposta da demanda, em que consumidores são incentivados a reduzir ou deslocar o consumo em momentos de maior sobrecarga.
Tradicionalmente, o horário de verão adianta os relógios em uma hora durante os meses mais quentes do ano — geralmente de outubro a fevereiro — com o objetivo de aproveitar melhor a luz natural e reduzir o consumo de energia elétrica no início da noite.
A prática foi adotada no Brasil pela primeira vez em 1931, tendo sido aplicada de forma intermitente ao longo das décadas. A última edição aconteceu entre 2018 e 2019, sendo extinta em 2019 pelo então presidente Jair Bolsonaro, com base em estudos do Ministério de Minas e Energia e do Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro), que indicavam que a economia de energia não era mais significativa, devido ao novo perfil de consumo — com mais uso de ar-condicionado e aparelhos eletrônicos em horários variados.
Com o avanço da geração distribuída (especialmente a solar), a eletrificação da frota e o aumento da demanda por energia no fim do dia, o ONS vê o horário de verão como uma ferramenta complementar para suavizar o pico de consumo. Ao adiar em uma hora o uso da iluminação artificial em grande parte do país, a medida pode reduzir a pressão sobre o sistema elétrico nesse intervalo crítico.
Efeitos regionais: o caso do Nordeste
A região Nordeste se comporta de maneira diferente em relação ao horário de verão. Por estar mais próxima da linha do Equador, a variação na duração do dia ao longo do ano é menor do que nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Isso significa que o ganho de luz natural no fim da tarde — o principal objetivo do horário de verão — é menos expressivo.
Além disso, dados históricos mostram que a adesão popular e os benefícios energéticos no Nordeste sempre foram limitados. Em alguns estados, como a Paraíba e o Rio Grande do Norte, o horário de verão nem chegou a ser adotado nos últimos anos em que esteve em vigor. Para muitos nordestinos, a medida é vista como desnecessária e até prejudicial, especialmente para trabalhadores rurais, estudantes e pessoas que iniciam suas atividades muito cedo, antes do sol nascer.
Um debate técnico e político
A possível volta do horário de verão divide opiniões entre especialistas, políticos e consumidores. Para o setor elétrico, trata-se de uma ferramenta de planejamento estratégico que pode contribuir para a estabilidade do sistema, especialmente em momentos de maior pressão.
Por outro lado, há quem defenda que as soluções deveriam se concentrar em melhorias estruturais, como expansão de fontes renováveis, armazenamento de energia e redes inteligentes, em vez de mudanças nos hábitos da população.
O governo federal ainda não se pronunciou oficialmente sobre a proposta, mas o relatório do ONS reacende a discussão em um momento em que o país busca segurança energética aliada à transição para uma matriz mais limpa e eficiente.