Preta Gil apostou até o fim em uma das armas mais modernas contra o câncer: a terapia-alvo, um tratamento de última geração que age diretamente nas alterações genéticas do tumor. Foi com essa esperança que a cantora embarcou para os Estados Unidos, onde passou os últimos meses de vida internada em um centro de referência oncológica. Mesmo com o esforço e o acesso à tecnologia mais avançada, Preta faleceu no sábado (20), aos 50 anos, vítima de complicações de um câncer colorretal metastático.

A terapia-alvo, diferente da quimioterapia tradicional, não ataca todas as células que se multiplicam rapidamente, mas sim estruturas específicas que alimentam o crescimento do câncer. É uma forma de medicina personalizada, indicada após testes genéticos que identificam mutações ou proteínas específicas no tumor. Com isso, o tratamento se torna mais preciso e, muitas vezes, com menos efeitos colaterais.

No caso de Preta, o câncer descoberto em janeiro de 2023 teve remissão após cirurgia, sessões de quimioterapia e radioterapia. No entanto, o tumor voltou de forma agressiva em 2024, atingindo órgãos como o ureter e linfonodos da virilha. Foi aí que ela iniciou um novo protocolo no Brasil com medicamentos já considerados terapias-alvo, como bevacizumabe e fluoracila, mas os resultados foram limitados.

Diante da gravidade do quadro, a cantora foi aceita em um estudo clínico experimental nos EUA, buscando acesso a drogas mais avançadas, que ainda não estão disponíveis no Brasil. Ela passou a ser tratada no Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York, um dos mais reconhecidos centros de pesquisa oncológica do mundo. O objetivo era testar combinações inéditas de medicamentos em pacientes com câncer resistente e metastático.

Apesar de sinais iniciais de resposta ao tratamento, o estado de saúde da artista piorou nas últimas semanas. Preta Gil morreu na manhã de sábado, em solo americano, após dois meses internada. A família confirmou a morte e iniciou os procedimentos de traslado do corpo para o Brasil.

A história de Preta Gil levanta uma discussão urgente sobre o acesso à medicina de precisão no Brasil. Embora a terapia-alvo já seja aprovada para alguns tipos de câncer, o custo elevado, a falta de estrutura para testes genéticos e a demora na liberação pelos planos de saúde dificultam o alcance a essa alternativa para a maioria da população.

A coragem de Preta Gil ao tornar pública sua luta contra o câncer e sua aposta na inovação até os últimos dias deixam um legado de força e conscientização. Sua trajetória escancara não só os desafios pessoais impostos pela doença, mas também as desigualdades no acesso aos avanços da medicina — uma realidade que precisa mudar.