O transporte coletivo de João Pessoa enfrenta uma crise silenciosa. Se antes da pandemia os ônibus da capital transportavam, em média, mais de 5 milhões de passageiros por mês, hoje esse número caiu para pouco mais de 4,2 milhões — uma perda de 17,3% na demanda, segundo o Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros (Sintur-JP).
A redução compromete a sustentabilidade do sistema e coloca em xeque o futuro da mobilidade urbana na cidade. “As dificuldades econômicas, a falta de faixas exclusivas, as más condições das vias e o avanço dos aplicativos de transporte agravam o problema”, alertou Isaac Júnior, diretor institucional do Sintur-JP. Ele acrescenta que, sem medidas urgentes, João Pessoa pode enfrentar um trânsito cada vez mais caótico, já que mais carros estão ocupando as ruas enquanto os ônibus circulam com assentos vazios.
O fenômeno é nacional, mas na capital paraibana a recuperação caminha mais devagar. Enquanto a média brasileira já atingiu 86% do nível pré-pandemia, João Pessoa ainda opera com 82,7%. Entre os fatores que explicam essa estagnação estão o aumento do número de veículos particulares, a queda na velocidade média dos ônibus — especialmente nos horários de pico — e a transformação do mercado de trabalho, marcada pelo teletrabalho, que reduziu o fluxo diário de passageiros.
Além disso, a alta taxa de gratuidades — que corresponde a 39% dos usuários, incluindo idosos e pessoas com deficiência — pressiona as empresas e reduz a arrecadação. O trabalhador, que representa cerca de 30% dos pagantes, é o público que mais diminuiu o uso do transporte.
Mesmo com o cenário de queda, o Sintur-JP tenta reverter o quadro com investimentos. Até junho de 2025, a capital já recebeu 55 novos ônibus e deve chegar a 70 até o fim do ano, consolidando-se como a terceira capital do Nordeste com a frota mais nova. Desde 2023, já foram incorporados 180 veículos modernos, com ar-condicionado, wi-fi e o serviço diferenciado “Geladinho”, voltado ao conforto e à experiência do passageiro.
A aposta é clara: renovar para reconquistar o público. Mas a equação é complexa. Enquanto o passageiro busca mais conforto e rapidez, o sistema pede equilíbrio financeiro e prioridade no trânsito. Caso contrário, João Pessoa pode seguir no caminho perigoso de depender cada vez mais de carros e aplicativos, abrindo mão de um transporte coletivo que, no passado, já foi símbolo de mobilidade e inclusão social.