O São João na Paraíba é muito mais do que festa. É sustento, oportunidade e tradição. A cada ano, o período junino transforma a realidade de milhares de pequenos produtores rurais que veem na cultura do milho uma chance real de aumentar a renda e garantir o sustento da família.

Em 2025, estima-se que os festejos juninos movimentem cerca de R$ 750 milhões no estado, com grande parte desse montante girando em torno da agricultura familiar e da venda de comidas típicas como pamonha, canjica, bolo de milho e milho cozido.

Produção local em destaque

Só em João Pessoa, o programa municipal “Eu Posso Semear” garantiu o plantio de 20 toneladas de milho por agricultores da zona sul da cidade. Um desses produtores, conhecido como Doda, colheu cerca de 400 mãos de milho, que estão sendo vendidas nas feiras do Bessa e dos Bancários por valores que variam entre R$ 40 e R$ 50. “É o nosso Natal. É no São João que a gente tem mais retorno. Com milho, a gente vende tudo: cru, cozido, pamonha e bolo”, afirma o agricultor.

Além das feiras tradicionais, eventos como a Feira do Milho da Empasa e o Festival do Milho da Cecaf, ambos em João Pessoa, consolidam o espaço para escoamento da produção agrícola familiar. Até a metade de junho, foram comercializadas quase 100 toneladas de milho na Empasa, 88% vindas diretamente de pequenos produtores da região.

Mais do que lucro: tradição e sustento

Para quem vive do campo, o São João representa muito mais do que um bom período de vendas. É também a reafirmação da cultura nordestina. A produtora Sandrieli, que trabalha com derivados de milho, relata que já vendeu mais de 5 mil itens somente em junho, e a expectativa é ultrapassar 7 mil até julho. “Compensa mais do que plantar. Comprei milho verde dos colegas, economizei com mão de obra e fiz pamonha pra vender. É o que segura as contas do mês”, conta.

A produção em larga escala exige investimento. Doda, por exemplo, gastou R$ 60 por quilo de semente para garantir uma safra de qualidade. Mas o retorno tem compensado: ele conta com apoio logístico da prefeitura para transporte e acesso facilitado às feiras.

Cidades que impulsionam a economia junina

O impacto econômico do milho também é sentido fortemente em municípios como Campina Grande, Patos e Bananeiras:
• Campina Grande, com o “Maior São João do Mundo”, atrai multidões e aquece todo o setor agrícola e gastronômico.
• Patos, que este ano deve superar Campina em número de visitantes, estima gerar mais de 5 mil empregos diretos e indiretos durante seus cinco dias de festa.
• Já Bananeiras tem se consolidado como um dos polos juninos em crescimento, reunindo música, gastronomia e valorização do produtor local.

Desafios da safra e aumento nos preços

Apesar dos bons resultados, nem tudo são flores para o homem do campo. A estiagem que atingiu a região entre março e abril prejudicou parte da safra nordestina, provocando aumento de até 45% no preço do milho. Esse cenário pressionou os produtores, reduziu margens de lucro e, em alguns casos, aumentou o valor final para o consumidor.

Mesmo assim, ações públicas têm ajudado a minimizar os impactos. Em João Pessoa, por exemplo, a prefeitura distribuiu mais de 160 toneladas de milho verde para 53 mil famílias em situação de vulnerabilidade. Em 2024, esse número foi de 50 toneladas — um crescimento significativo.

Cultura que alimenta

O São João é, ao mesmo tempo, palco, vitrine e mesa posta para quem vive da terra. O milho, símbolo dessa época, representa fartura e memória afetiva. A cadeia produtiva que gira em torno dele envolve agricultores, feirantes, ambulantes, doceiras e cozinheiros. E, acima de tudo, mostra que o campo paraibano, mesmo diante das dificuldades, continua sendo protagonista de uma festa que alimenta o corpo e mantém viva a alma do Nordeste.